sábado, 19 de dezembro de 2009

Querido Papai Noel,

É dezembro. Época de prosperidade, reencontros, esquecer as amarguras passadas, rasgar os estratos bancários antigos, perdoar, amar, presentes. Restaurar, rejuvenescer. Papai Noel, tu és a minha última esperança. Eu já não tenho mais a quem pedir, a quem impugnar. Eu já orei para Deus, mas não adiantou; já pedi para o Coelho da Páscoa trazê-lo de volta para mim junto com algum ovo de Páscoa, mas ele não trouxe, já obsecrei para os meus pais derem-me ele de presente de Dia das Crianças, mas, nada adiantou. Agora, Papai Noel, quem me resta és tu. Eu lhe apelo, dê-me ele de presente, Papai Noel. Faça mais uma criança feliz, nesse universo decadente; no qual eu já não sei distinguir o bem do mal, o errado do certo. Faça-me ter novamente aquele sorriso que eu tinha quando ele ponderava palavras ao pé do meu ouvido, faça-me abraçar alguém novamente, com tanta ambição quanto eu tinha quando o abraçava. Traga-o para mim. Os dias sem ele são monótonos, são nuviosas e maçantes. As noites sem ele são geladas, solitárias, ameaçadoras. Eu vivo em uma constante metamorfose. E eu sinto que sucinto dele para ajudar-me a estabilizar-me. Eu conciso dele para os meus dias tornarem-se claros, para as minhas noites tornarem-se quentes. Eu já não aturo mais sentir frio todas as noites, eu me sinto asfixiada pelas minhas próprias mãos. Eu me sinto morta. Dê-me este presente, Papai Noel. Minha existência não tem significado sem ele. Eu preciso dele para ter o entusiasmo que eu tinha, eu preciso estar com ele. Faço-te este apelo nesta carta fracassada de tentar tê-lo de volta.

Assinado: Solidão.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

6:00 a.m.

Quase seis da manhã, e eu aqui, incólume. Não sei o que ainda estou fazendo aqui, qual o motivo. Está quase amanhecendo, e eu adoro ver o rosado que fica quando cedo da manhã, puder ouvir o som dos pássaros acordando e o sossego da cidade. Gosto da madrugada, ela me faz cogitar. Eu gosto de trocar o dia pela noite. A noite é mais formosa, à noite me cativa, é tudo mais pulcro. Gosto do silêncio. Gosto de poder escutar meus pensamentos sem nem uma interrupção, gosto de poder ficar aqui só por ficar. Gosto de começar a sentir o sono, e logo deitar-me na cama e poder descansar.

sábado, 28 de novembro de 2009

Vazio.

"O professor de Artes havia dado uma folha em branco para os alunos. Uma folha vazia, sem vida alguma. Ele disse que queria que os alunos desenhassem na folha o que eles estavam sentindo, era para eles soltarem a criatividade. Logo, podiam-se ver os alunos empolgados, desenhando coisas surpreendentemente encantadoras. Desde desenhos em preto e branco, até desenhos extremamente coloridos. Ao término da aula, ele disse para os alunos concluírem os desenhos, e trazerem na próxima aula, para que eles pudessem apresentar o trabalho, falando o porquê do desenho, o que ele significava.
Passou uma semana, e a aula de Artes acabara de começar, novamente. O professor sentou-se em sua mesa, e pediu para que um a um fosse à frente apresentar teus desenhos. Uma garota começou, apresentando um desenho extremamente encantador, com cores vivas e fortes. E assim foi, até que só faltava um menino, que estava no fundo da sala, sentado, solitário. O professor o chamou, e ele se levantou, indo até a frente da sala de cabeça baixa. O garoto mostrou para a turma uma folha em branco, vazia, assim como o professor havia entregado.
- Tu não fizeste o dever, meu caro? – O professor perguntou.
- Eu fiz. – O menino respondeu.
- Por que está tudo em branco? – O professor indignado perguntou, novamente.
- Porque tu havias dito que era para desenharmos o que nós estávamos sentindo. E eu me sinto assim... Vazio. Sem esperanças, apagado, em branco. Sem sentimentos. – O garoto falou encarando o chão. O professor observou-o, e logo o sinal tocou, fazendo assim, todos saírem da classe."

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Escape.

“Eu a fitava durante algum tempo. Ela sempre fazia a mesma coisa. Todas as tardes. Ela saia da escola, e ia correndo para uma antiga e abandonada rampa de Skate, na qual ninguém freqüentava. Ela se sentava no alto da rampa, acendia um cigarro e tragava-o vagarosamente. Todas as tardes. Eu andava observando-a a algum tempo. Apenas de olhá-la, ela me fazia estremecer e meu coração bater. Era um dia nublado e frio, eu estava sentado na rampa de Skate antes dela. Tragando um cigarro, com uma bebida ao lado. Eu estava viajando em meus pensamentos, acabei esquecendo a hora, e não pude escutá-la chegar. Ela sentou-se ao meu lado, e fitava-me sem sequer dar alguma palavra. Pude ver dos olhos dela, uma lágrima cair. Sem entender o quê havia, eu levantei-me. No mesmo instante, ela me puxou para baixo.
- Fique aqui. Fique aqui comigo. – Ela implorou-me. – Sentei-me novamente ao lado dela. Fitava-a.
- O quê houve moça? – Perguntei-a com uma expressão de preocupação.
Ela não me respondeu. Ergui uma de minhas sobrancelhas, ainda esperando alguma resposta. Ela tremia, teus lábios gélidos e rosados pelo frio, teus d
entes açoitavam um no outro, o cabelo atirado para trás, por culpa do vento. Retirei o meu casaco, e entreguei-a. Logo, ela se vestira com ele.
- Conte-me o quê houve, uh? – Insisti.
- Eu não aturo mais minha vida. Eu quero fugir! – Ela falou de uma vez só, um pouco calma, mas com uma expressão de alvoroço. – Fuja comigo? – Ela sussurrou séria.
- Tu nem me conheces. – Falei no mesmo tom, com um ar de surpreso.
- E daí?! Fuja comigo! – Ela falava no mesmo tom, com certa ponderação.
- Tu és apenas uma criança. – Falava para ela.
- Não! – Ela soltou um rugido.
- Hoje? – Perguntei-a.
- Amanhã. Ao pôr-do-sol. – Ela continuava a falar com seriedade.
- Estarei aqui. – Dei uma última tragada no meu cigarro e joguei-o fora. Ela se levantou e saiu. Fiquei lá por mais alguns minutos, e logo depois me retirei do local. Cheguei em casa, deitei-me no sofá. Contava os minutos. Adormeci.
Acordei. Já era tarde. A hora havia passado. Fui correndo para a rampa de Skate, com alguma esperança de vê-la por lá. Ela estava sentada choramingando.
- Pensei que não viria. – Ela gaguejou.
- Eu disse que viria. – Eu fitava-a. Ela me abraçou forte, e soltou um sorriso. Ela estava gelada, e estava vestida com meu casaco, que ficara com ela no dia passado. Pegamos o trem.
- Qual o teu nome? – Ela me questionou.

- Steven. – Eu respondi.”

"Eu te amo".

"Achar alguém que nos completa nem sempre é simples. Achar alguém a quem amar, e ser amado, nem sempre é simples. Ser simples, nem sempre é simples. É necessário ser terno e áspero. Creio que raros podem sentir o quão significa aquela palavra tão pequena e suave aos ouvidos, chamada “amor”. Qualquer um pode falar um mísero “Eu te amo”. Qualquer um pode iludir o outro falando tal frase, tão pequena e insignificante. Mas, no fundo, estás apenas enganando a ti próprio. “Eu te amo” é tão comum, que virou clichê. Não se pode mais falar apenas um “Eu te amo” para alguém, porque isto tu encontras em qualquer esquina... Já não se dão o devido valor a tal expressão. Amar e odiar. Duas palavras fortes. Mas hoje, tão clichês. A juventude tornou-as clichê. Demodê. Antes de falar “Eu te amo”, pense duas vezes."

sábado, 14 de novembro de 2009

Vadias.

"O Rock'n'roll tocava, os anos setenta voltara. Deitada na cama, com pés para o ar, esperando ele chegar. O sol aparecia, o lençol me cobria, o Tilenol de baixo do colchão, o girassol no chão, o futebol na televisão. A cama desarrumada, a mulher armada. Alguém acabara de abrir a porta, era ele. Só podia ser ele.
- Amor? – Perguntei.
- Não. – Responderam-me. – Quem poderia ser? Apressei-me para debaixo dos lençóis, cobrindo-me até o colo. Passos aproximavam-se, cada vez mais perto o som estava. Preocupada eu ficava. Eu escutara algum barulho estranho, semelhante a uma arma. Oh. Era a esposa dele.
- O que tu queres aqui? – Perguntei-a.
- Tua dignidade. Ah é, tu não tens. Vadia. – Ela soltou uma gargalhada.
Ouvia a porta se abrir, novamente. Passos aproximavam-se. Outra mulher. Outra mulher.
- Olá, vagabundas. – A mulher que acabara de chegar cumprimentou-nos. – Olhava-as com cara de espanto.
- Isto daqui virou alguma reunião particular? – Perguntei-as.
- Eu sou a mulher dele. – A primeira mulher falou de arranco.
- Não, eu sou. – A segunda berrou. Elas discutiam.
- E tu? Quem é?! – Uma delas perguntou-me.
- A gostosa com quem o marido de vocês faz sexo. – Soltei uma majestosa risada.
A porta se abrira novamente. Passos aproximavam-se. Outra mulher seria? A minha sorte é que não sou nada dele, além de mulher de noite, que se aproveitava do dinheiro do velho. Era ele. Aproximou-se da cama.
- Olá. – Ele falou enquanto beijava a primeira mulher, na qual estava armada. Pegando assim, a arma dela. Ele atirou na primeira, e logo em seguida na segunda. Eu esperava pela minha vez, não seria diferente comigo. Eu sempre pensei na morte. Eu esperava morrer por algo digno. Mas eu sou uma puta! Eu nunca poderia morrer por algo digno. A não ser que tu julgues dinheiro, sexo e drogas digno. De certa forma, eu até acho digno, não? Isso é tudo o que eu preciso. – Ele apontou a arma na minha cabeça. – Vagabunda. – Ele falou enquanto puxava meu cabelo com a outra mão. Uma leve gargalhada eu soltei. Ele me largou, jogou-me na cama dando-me um tapa. Atirou."

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Palhaços não choram.

“Respeitável público, sejam todos bem vindos ao Circo!” O apresentador do circo havia dito. Eu estava sentada na última cadeira da última fileira, mal podia ver o espetáculo. Havia anos que eu não ia ao circo. Um senhor muito simpático me ofereceu uma pipoca, comprei-lhe a pipoca. O palhaço apareceu, e logo pude escutar as risadas alheias, atentamente olhei para o palco. Aquele rosto, aquele jeito, aquele andar... Irreconhecível. O espetáculo contiuara e logo me levantei e retirei-me de dentro do circo, partindo para a porta dos fundos do local. Entrei no camarim, e podia ver os “atores” se preparando para o espetáculo. Risadas, risadas e risadas eu podia escutar. “Quando o palhaço sairá do palco?” Perguntei para um acrobata. “Daqui alguns cinco minutos!” Ele me falou agitado. Abri um sorriso ao escutá-lo falando aquilo. Sentei-me no chão e esperava-o com pensamentos positivos. “Ei, tem uma moça ali esperando por ti.” Escutei uma voz baixa e roca apontando para mim de longe. O palhaço veio lentamente em minha direção, eu podia ver os olhos dele vidrados em mim enquanto ele vinha; ele se aproximou. Sentou-se ao meu lado. “Olá?” Ele ‘perguntou’ com um sorriso. Era ele. “Scott?” Perguntei com uma voz abafada. “Como sabes?” Ele levantou-se se afastando. “Sou eu.” Eu disse. “Você está morta!” Ele me olhou com uma lágrima no olhar. “Não estou.” Falei com uma voz de choro. “Abraça-me. Estou com saudades.” Eu pedi. Logo pude ver lágrimas escorrerem pelo rosto tão doce dele, e fazendo a maquiagem borrar. Eu me levantei e o abracei. “Um palhaço não chora.” Falei enquanto limpava as lágrimas dele. “São lágrimas de felicidade.” Ele me apertou.

domingo, 1 de novembro de 2009

Rotina.

“Cama, travesseiro, cobertor, calor, ventilador, café, pão, requeijão, uniforme, escova de dente, tênis, mesa, quadro, lápis, caderno, lanche, sentar, conversar, almoçar, inglês, dormir, internet, dormir, internet, escrever, comer, falar, cama, travesseiro... Meu mundo. Minha rotina. Igual, idêntico, semelhante. Nada de diferente, apenas as mesmas coisas. Será que isso só acontece comigo? Ficar presa no quarto, olhar a janela, a chuva passar. Chuva. Dias de chuvas me fazem pensar. Pensar. Pensar no passado, no presente e no futuro. Pensar no futuro me faz querer mudar. Mudar me faz querer sair da rotina. Rotina me faz lembrar o passado, passado me lembra o presente que me lembra o futuro. Um círculo viciante, nunca acaba.
Eu volto no mesmo lugar. Extravasar. Lá fui eu, querer mudar a minha rotina. Sete e quarenta e sete da noite, uma blusa de frio, uma calça apertada um tênis retrógrado. Um bar no escuro, bebidas e vinho. Pessoas por minha volta.
– Olá. – Eu escutei alguém falar.
– Olá? – Eu respondi.
– Posso sentar? – Ele perguntou.
– Sente-se. – Eu falei.
Seria ali o início da minha mudança? Quem sabe, talvez sim, talvez não... Uma semana, duas semanas, três semanas se passaram. As coisas mudaram. Cama, travesseiro, cobertor, calor, ventilador, café, pão, manteiga, uniforme, escova de dente, tênis, mesa, abraço, quadro, lápis, caderno, lanche, sentar, conversar, abraçar, almoçar, inglês, encontrar, beijar, sair, sentar, sentir, abraçar, internet, escrever, amar, cama, travesseiro.”

sábado, 31 de outubro de 2009

Eu me sentia morta.

“Ele me abraçou, e deu-me um beijo. Eu já não o entendia, há alguns minutos atrás ele falava que me odiava e que nunca mais queria me ver. E logo depois, já havia me dado um beijo. Eu realmente odeio quando ele faz isso, mas eu não podia pensar em nada mais, além dos seus lábios tocando os meus... Eram realmente tentadores, e impossíveis de se largar. Seus olhos negros, seu cabelo liso e preto, sua pele branca e seus lábios vermelhos... Nós ali, sozinhos. Ele me abraçou, e deu-me um beijo. Escutei uns passos, não sabia de quem era, deveria ser algum amigo dele... Ele parou o beijo, e logo tapou minha boca.
- Eu te amo. – Ele disse com uma lágrima escorrendo de teu olhar.
- Eu também. – Eu disse abafadamente pelas mãos dele, sem entender nada.
Logo, a porta do quarto dele se abrira, e era alguém, eu não fazia a menor idéia de quem era. Apenas vi um vulto, quando fui a perceber ele estava caído no chão, sangrando. O homem havia ido embora e eu não sabia o que fazer. Joguei-me em cima dele, e senti uma lágrima cair do meu olho. Encostei minha cabeça em seu coração, e logo não sentia mais o coração dele bater. Agarrei-o como se nunca fosse soltá-lo. Eu o amava. Não poderia me conformar. A polícia chegou, ele havia sido morto. O assassino? Não descobriram... Pelo menos não que eu saiba. Um mês, dois meses, três meses se passaram. Aquela dor não passava, eu não poderia viver sem ele. Ele me falava que se fosse para ele morrer algum dia, ele morreria por alguém que ele amasse. Encontrei uma carta dele no fundo das minhas gavetas: “Eu te amo. Você sempre será minha, se me pegarem, lembre-se de mim. Viva.” Por que o pegaram? O quê aconteceu? Eu não podia entender! Peguei o carro da minha mãe, fui para o farol, que era afastado da cidade. Subi. Olhava para baixo, olhava para cima, seria ali o meu fim. Porque eu não estava viva sem ele, para quê ficar viva? Eu me sentia morta desde a morte dele. Joguei-me.”

Inspiração.

“A minha inspiração para escrever se foi, se foi quando ele partiu. Na verdade, eu nunca soube escrever bem, muito menos agora que a razão dos meus desejos se fora, a razão dos meus sonhos mais malucos e dos meus pensamentos mais exóticos. Os meus textos normalmente tinham algum tipo de emoção, algo que eu pudesse passar para os leitores, hoje em dia já não é nada. Não sei mais o que escrever, ou sobre o que escrever. Por que ele se foi? Ele me deixou por algum erro meu? Ou será que os meus textos não eram o suficiente para demonstrar todo o meu carinho por ele? Eu já não sei mais o que pensar. Ele me deixou por outra. Ele foi com outra. Sem querer me gabar, mas eu sou muito melhor do que ela. Mas é como dizem... O mundo dá voltas... E quem sabe em uma dessas nós não nos topamos? Eu adoraria. Até lá eu já escreverei textos melhores, talvez não tão bons quanto os da Clarice Lispector, ou Shakespeare, mas o suficiente para mostrar o tanto que ele me fez sofrer. O tanto que eu sofro, e o tanto que eu sofrerei. Eu me pego falando com paredes, o assunto? Ele. Eu me pego pensando em coisas, o assunto? Ele. Apenas ele. O mundo gira em torno dele? Pouco me importo. Saia. Então lá fui eu, para alguma desses bares de Londres...
- Vamos lá, pegue uma bebida! Beba, não faz mal! É bom... Faz bem! Se sinta bem, se sinta livre. Morrer é o melhor meio de se esquecer os problemas. – Eu só escutava isso, eu já não me recordo de mais nada. Apenas me lembro de uma morte lenta e dolorosa, com facas e chicotes, sangue... Estou agora, sentada em cima de uma cova, ooh! De uma cova. Uma cova pertencente a mim. “Morrer é o melhor jeito de esquecer os problemas.” Do que adianta morrer, meu corpo se vai e minha alma permanece aqui. Inviolável, compactada, sentada, pensando nele. A morte é tediosa, e os meus textos também. Agora não posso mais escrever, quem lerá os textos de um defunto?”

Lágrimas.

“Cartas velhas, amores antigos, poeira, velas, escuro, frio, lembranças... Ele. Será que um dia ela poderá esquecê-lo? Gavetas guardam palavras distantes, vidas passadas, amores acabados. Um lápis pequeno, rabiscos no lixo, papéis jogados, a chuva caindo. Invenções. A música no rádio, a capa da revista, a manchete do jornal... Em pessoas desconhecidas tentava encontrá-lo. A perna quebrada, a bermuda largada, a chegada da chuva, a grama cortada... Lembranças passadas. Palavras ao vento, versos no lixo, desenhos guardados. Paredes pintadas. Ela havia cansado de esperar por ele, de se perguntar o que havia acontecido, se ela era a errada. Ela só havia amado demais. Isso é errar? Caída no chão, com os pés no colchão, com fotos na mão. Ela apreciava as fotos e uma lágrima percorria a face dela, ela podia sentir seu nariz entupir, e soluços chegando. Lágrimas caiam nas fotos, as fotos de tão remotas se despedaçavam. O coração dela partido, a vela caída, o fogo percorrendo pelos móveis. “Bip-bip”, o celular tocou. O fogo acabou. Acabou com a casa e com ela. “Nos encontramos às 19h00min?” No celular estava escrito. Ela morreu sem saber o porquê, e ele chorou por ter demorado demais.”

Você morreria?

“- Você morreria por amor? – Perguntei-o.
- Eu morreria. – Ele me abraçou.
- Você me ama? – Fitava-o.
- Eu amo você. – Ele me apertou.
O olhava atentamente, por ali ser talvez o mais perto possível aonde eu já cheguei do amor. Ele me abraçava e sorria para mim, seria talvez a última vez que o veria sorrindo. Mas, seria a forma mais fácil para mim e para ele. A forma mais fácil de tirar toda aquela dor de nossos corações, aquele aperto que nos dava a cada despedida, a cada abraço e a cada beijo. É mais fácil uma despedida do que várias.
- Eu amo você, nos encontramos mais tarde. – Sorri ao olhá-lo. Cravei a faca no coração dele. O observava cair, abaixei a cabeça e me retirei. Ele morreria por amor.”