sábado, 28 de novembro de 2009

Vazio.

"O professor de Artes havia dado uma folha em branco para os alunos. Uma folha vazia, sem vida alguma. Ele disse que queria que os alunos desenhassem na folha o que eles estavam sentindo, era para eles soltarem a criatividade. Logo, podiam-se ver os alunos empolgados, desenhando coisas surpreendentemente encantadoras. Desde desenhos em preto e branco, até desenhos extremamente coloridos. Ao término da aula, ele disse para os alunos concluírem os desenhos, e trazerem na próxima aula, para que eles pudessem apresentar o trabalho, falando o porquê do desenho, o que ele significava.
Passou uma semana, e a aula de Artes acabara de começar, novamente. O professor sentou-se em sua mesa, e pediu para que um a um fosse à frente apresentar teus desenhos. Uma garota começou, apresentando um desenho extremamente encantador, com cores vivas e fortes. E assim foi, até que só faltava um menino, que estava no fundo da sala, sentado, solitário. O professor o chamou, e ele se levantou, indo até a frente da sala de cabeça baixa. O garoto mostrou para a turma uma folha em branco, vazia, assim como o professor havia entregado.
- Tu não fizeste o dever, meu caro? – O professor perguntou.
- Eu fiz. – O menino respondeu.
- Por que está tudo em branco? – O professor indignado perguntou, novamente.
- Porque tu havias dito que era para desenharmos o que nós estávamos sentindo. E eu me sinto assim... Vazio. Sem esperanças, apagado, em branco. Sem sentimentos. – O garoto falou encarando o chão. O professor observou-o, e logo o sinal tocou, fazendo assim, todos saírem da classe."

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Escape.

“Eu a fitava durante algum tempo. Ela sempre fazia a mesma coisa. Todas as tardes. Ela saia da escola, e ia correndo para uma antiga e abandonada rampa de Skate, na qual ninguém freqüentava. Ela se sentava no alto da rampa, acendia um cigarro e tragava-o vagarosamente. Todas as tardes. Eu andava observando-a a algum tempo. Apenas de olhá-la, ela me fazia estremecer e meu coração bater. Era um dia nublado e frio, eu estava sentado na rampa de Skate antes dela. Tragando um cigarro, com uma bebida ao lado. Eu estava viajando em meus pensamentos, acabei esquecendo a hora, e não pude escutá-la chegar. Ela sentou-se ao meu lado, e fitava-me sem sequer dar alguma palavra. Pude ver dos olhos dela, uma lágrima cair. Sem entender o quê havia, eu levantei-me. No mesmo instante, ela me puxou para baixo.
- Fique aqui. Fique aqui comigo. – Ela implorou-me. – Sentei-me novamente ao lado dela. Fitava-a.
- O quê houve moça? – Perguntei-a com uma expressão de preocupação.
Ela não me respondeu. Ergui uma de minhas sobrancelhas, ainda esperando alguma resposta. Ela tremia, teus lábios gélidos e rosados pelo frio, teus d
entes açoitavam um no outro, o cabelo atirado para trás, por culpa do vento. Retirei o meu casaco, e entreguei-a. Logo, ela se vestira com ele.
- Conte-me o quê houve, uh? – Insisti.
- Eu não aturo mais minha vida. Eu quero fugir! – Ela falou de uma vez só, um pouco calma, mas com uma expressão de alvoroço. – Fuja comigo? – Ela sussurrou séria.
- Tu nem me conheces. – Falei no mesmo tom, com um ar de surpreso.
- E daí?! Fuja comigo! – Ela falava no mesmo tom, com certa ponderação.
- Tu és apenas uma criança. – Falava para ela.
- Não! – Ela soltou um rugido.
- Hoje? – Perguntei-a.
- Amanhã. Ao pôr-do-sol. – Ela continuava a falar com seriedade.
- Estarei aqui. – Dei uma última tragada no meu cigarro e joguei-o fora. Ela se levantou e saiu. Fiquei lá por mais alguns minutos, e logo depois me retirei do local. Cheguei em casa, deitei-me no sofá. Contava os minutos. Adormeci.
Acordei. Já era tarde. A hora havia passado. Fui correndo para a rampa de Skate, com alguma esperança de vê-la por lá. Ela estava sentada choramingando.
- Pensei que não viria. – Ela gaguejou.
- Eu disse que viria. – Eu fitava-a. Ela me abraçou forte, e soltou um sorriso. Ela estava gelada, e estava vestida com meu casaco, que ficara com ela no dia passado. Pegamos o trem.
- Qual o teu nome? – Ela me questionou.

- Steven. – Eu respondi.”

"Eu te amo".

"Achar alguém que nos completa nem sempre é simples. Achar alguém a quem amar, e ser amado, nem sempre é simples. Ser simples, nem sempre é simples. É necessário ser terno e áspero. Creio que raros podem sentir o quão significa aquela palavra tão pequena e suave aos ouvidos, chamada “amor”. Qualquer um pode falar um mísero “Eu te amo”. Qualquer um pode iludir o outro falando tal frase, tão pequena e insignificante. Mas, no fundo, estás apenas enganando a ti próprio. “Eu te amo” é tão comum, que virou clichê. Não se pode mais falar apenas um “Eu te amo” para alguém, porque isto tu encontras em qualquer esquina... Já não se dão o devido valor a tal expressão. Amar e odiar. Duas palavras fortes. Mas hoje, tão clichês. A juventude tornou-as clichê. Demodê. Antes de falar “Eu te amo”, pense duas vezes."

sábado, 14 de novembro de 2009

Vadias.

"O Rock'n'roll tocava, os anos setenta voltara. Deitada na cama, com pés para o ar, esperando ele chegar. O sol aparecia, o lençol me cobria, o Tilenol de baixo do colchão, o girassol no chão, o futebol na televisão. A cama desarrumada, a mulher armada. Alguém acabara de abrir a porta, era ele. Só podia ser ele.
- Amor? – Perguntei.
- Não. – Responderam-me. – Quem poderia ser? Apressei-me para debaixo dos lençóis, cobrindo-me até o colo. Passos aproximavam-se, cada vez mais perto o som estava. Preocupada eu ficava. Eu escutara algum barulho estranho, semelhante a uma arma. Oh. Era a esposa dele.
- O que tu queres aqui? – Perguntei-a.
- Tua dignidade. Ah é, tu não tens. Vadia. – Ela soltou uma gargalhada.
Ouvia a porta se abrir, novamente. Passos aproximavam-se. Outra mulher. Outra mulher.
- Olá, vagabundas. – A mulher que acabara de chegar cumprimentou-nos. – Olhava-as com cara de espanto.
- Isto daqui virou alguma reunião particular? – Perguntei-as.
- Eu sou a mulher dele. – A primeira mulher falou de arranco.
- Não, eu sou. – A segunda berrou. Elas discutiam.
- E tu? Quem é?! – Uma delas perguntou-me.
- A gostosa com quem o marido de vocês faz sexo. – Soltei uma majestosa risada.
A porta se abrira novamente. Passos aproximavam-se. Outra mulher seria? A minha sorte é que não sou nada dele, além de mulher de noite, que se aproveitava do dinheiro do velho. Era ele. Aproximou-se da cama.
- Olá. – Ele falou enquanto beijava a primeira mulher, na qual estava armada. Pegando assim, a arma dela. Ele atirou na primeira, e logo em seguida na segunda. Eu esperava pela minha vez, não seria diferente comigo. Eu sempre pensei na morte. Eu esperava morrer por algo digno. Mas eu sou uma puta! Eu nunca poderia morrer por algo digno. A não ser que tu julgues dinheiro, sexo e drogas digno. De certa forma, eu até acho digno, não? Isso é tudo o que eu preciso. – Ele apontou a arma na minha cabeça. – Vagabunda. – Ele falou enquanto puxava meu cabelo com a outra mão. Uma leve gargalhada eu soltei. Ele me largou, jogou-me na cama dando-me um tapa. Atirou."

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Palhaços não choram.

“Respeitável público, sejam todos bem vindos ao Circo!” O apresentador do circo havia dito. Eu estava sentada na última cadeira da última fileira, mal podia ver o espetáculo. Havia anos que eu não ia ao circo. Um senhor muito simpático me ofereceu uma pipoca, comprei-lhe a pipoca. O palhaço apareceu, e logo pude escutar as risadas alheias, atentamente olhei para o palco. Aquele rosto, aquele jeito, aquele andar... Irreconhecível. O espetáculo contiuara e logo me levantei e retirei-me de dentro do circo, partindo para a porta dos fundos do local. Entrei no camarim, e podia ver os “atores” se preparando para o espetáculo. Risadas, risadas e risadas eu podia escutar. “Quando o palhaço sairá do palco?” Perguntei para um acrobata. “Daqui alguns cinco minutos!” Ele me falou agitado. Abri um sorriso ao escutá-lo falando aquilo. Sentei-me no chão e esperava-o com pensamentos positivos. “Ei, tem uma moça ali esperando por ti.” Escutei uma voz baixa e roca apontando para mim de longe. O palhaço veio lentamente em minha direção, eu podia ver os olhos dele vidrados em mim enquanto ele vinha; ele se aproximou. Sentou-se ao meu lado. “Olá?” Ele ‘perguntou’ com um sorriso. Era ele. “Scott?” Perguntei com uma voz abafada. “Como sabes?” Ele levantou-se se afastando. “Sou eu.” Eu disse. “Você está morta!” Ele me olhou com uma lágrima no olhar. “Não estou.” Falei com uma voz de choro. “Abraça-me. Estou com saudades.” Eu pedi. Logo pude ver lágrimas escorrerem pelo rosto tão doce dele, e fazendo a maquiagem borrar. Eu me levantei e o abracei. “Um palhaço não chora.” Falei enquanto limpava as lágrimas dele. “São lágrimas de felicidade.” Ele me apertou.

domingo, 1 de novembro de 2009

Rotina.

“Cama, travesseiro, cobertor, calor, ventilador, café, pão, requeijão, uniforme, escova de dente, tênis, mesa, quadro, lápis, caderno, lanche, sentar, conversar, almoçar, inglês, dormir, internet, dormir, internet, escrever, comer, falar, cama, travesseiro... Meu mundo. Minha rotina. Igual, idêntico, semelhante. Nada de diferente, apenas as mesmas coisas. Será que isso só acontece comigo? Ficar presa no quarto, olhar a janela, a chuva passar. Chuva. Dias de chuvas me fazem pensar. Pensar. Pensar no passado, no presente e no futuro. Pensar no futuro me faz querer mudar. Mudar me faz querer sair da rotina. Rotina me faz lembrar o passado, passado me lembra o presente que me lembra o futuro. Um círculo viciante, nunca acaba.
Eu volto no mesmo lugar. Extravasar. Lá fui eu, querer mudar a minha rotina. Sete e quarenta e sete da noite, uma blusa de frio, uma calça apertada um tênis retrógrado. Um bar no escuro, bebidas e vinho. Pessoas por minha volta.
– Olá. – Eu escutei alguém falar.
– Olá? – Eu respondi.
– Posso sentar? – Ele perguntou.
– Sente-se. – Eu falei.
Seria ali o início da minha mudança? Quem sabe, talvez sim, talvez não... Uma semana, duas semanas, três semanas se passaram. As coisas mudaram. Cama, travesseiro, cobertor, calor, ventilador, café, pão, manteiga, uniforme, escova de dente, tênis, mesa, abraço, quadro, lápis, caderno, lanche, sentar, conversar, abraçar, almoçar, inglês, encontrar, beijar, sair, sentar, sentir, abraçar, internet, escrever, amar, cama, travesseiro.”